Entrevista com Celso Azevedo, a viver e trabalhar em Londres 18

Hoje o Trabalho em Londres traz um caso real de um Português que vive e trabalha em Londres. Celso Azevedo foi para Londres em 2007, quando era novo, e agora com 19 anos trabalha em part-time e ganha dinheiro através da internet. Um dos seus sites principais é o WordPress Total.

Trabalho em Londres: Como foste parar a Londres e há quanto tempo estás aí?
Celso Azevedo: Foi em Julho de 2007 que vim para Londres. A minha família estava numa situação financeira complicada e as alternativas eram poucas. Vim contra a minha vontade, foi uma escolha que não agrada a ninguém que tenha 15 anos e que saiba que vai ter que parar de estudar, deixar os amigos e familiares e que vai para um país onde a tem várias culturas e costumes, está organizada de forma diferente e tem uma língua que não se sabe falar.

TL: Qual a tua ocupação profissional em Londres? Já mudaste de emprego alguma vez?

A minha principal ocupação é a internet mas “offline” faço um part-time numa empresa de limpeza. É um mau trabalho, mas com o meu nível de inglês e sem formação é complicado conseguir a um trabalho melhor. Já estive a ver outros locais, como restaurantes ou hotéis, mas como espero poder dedicar-me a tempo inteiro a internet, optei por ficar neste durante mais algum tempo.

TL: Quando decidiste ir para Londres já tinhas emprego ou tiveste de procurar depois? Pensas que estando em Portugal ou no Brasil há hipóteses de se encontrar um emprego em Londres ou é melhor estar em Londres?

Bem, nada do que os meus pais tinham planeado deu certo por isso foi um desastre o primeiro ano que estivemos aqui. Tinha-mos um conhecido que nos tinha prometido ajuda, mas depois “desapareceu” e ficamos um pouco perdidos. Eu estive mais de um ano a cuidar da minha irmã que na altura tinha 3 anos, desde de manha até a tarde. Durante esse tempo os meus pais trabalhavam e como as escolas aqui na área estavam cheias, alguém tinha que ficar com ela.

Na altura para encontrar trabalho foi numa agência de trabalho em Vauxhall, os meus pais tiveram sorte porque arranjaram trabalho logo no dia, apesar de um ser como lava pratos numa cozinha onde pagavam mal e o trabalho era muito (escravatura). Já eu foi 1 ano depois, através de uma pessoa que conhecemos que nos deu o contacto desta empresa onde estou agora. A patroa é italiana, o braço direito dela é português e não tive dificuldades para entrar, mas como é óbvio tive que me aplicar durante o período que estive a experiência.

Sobre a tua outra pergunta, não sei como é a situação no Brasil ou em Portugal continental. Eu sou da Madeira, uma pequena ilha que depende muito da construção, hotéis, bares/restaurantes e do pequeno comercio (lojas de roupa, etc) e na altura estava a ficar difícil para encontrar trabalho.

Aqui, apesar dos grandes cortes no investimento que o governo fez e ainda vai fazer, sempre se encontra algum. É claro que os trabalhos e os salários podem não ser os melhores, mas como eu costumo dizer… aqui só morre a fome quem quer. No entanto é importante dizer que existem muitas pessoas a procura de trabalho e quando assim é os patrões pagam menos porque se tu não aceitas, outro vai aceitar. Não têm que fazer esforços para encontrar pessoas, mesmo que paguem mal.

TL: Quais as maiores dificuldades de encontraste no inicio?

No inicio não tínhamos dinheiro e por isso tivemos que alugar um quarto numa casa onde viviam brasileiros. Era tudo partilhado, até durante a noite havia barulho porque algumas pessoas trabalhavam de dia e outras a noite… foi muito complicado, estivemos 1 mês lá mas devo de dizer que se eu pudesse, saía logo no primeiro dia.

Passamos depois para um studio flat, que basicamente é um quarto com uma cama, cozinha e uma parte separada com uma casa de banho minúscula. A privacidade entre nós continuava a ser nenhuma, o espaço era pouco mas pelo menos fazia-mos o que queria-mos a qualquer hora sem ter que ouvir reclamações de ninguém.

Foi difícil também para encontrar escola para a minha irmã e fazer as outras coisas como abrir uma conta no banco, ir ao centro de saúde, enfim, fazer as coisas do dia-a-dia. Se algum de nós falasse inglês, mesmo que com muitos erros como eu neste momento, tudo seria muito mais fácil.

TL: Achas importante saber falar bem inglês para conseguir um bom trabalho em Londres? ou há muitas oportunidades para quem não fale muito bem a lingua?

O inglês é importante para qualquer pessoa mesmo que nunca saia do seu país. É uma língua que se fala em todo o lado e infelizmente até já se começa a usar palavras inglesas em vez das existentes na nossa língua.

Para conseguir um bom trabalho tens que falar bem inglês. Conheço alguns casos onde as pessoas têm formação em algumas áreas, mas como não sabem falar acabam por não conseguirem trabalho na área que pretendiam.

Para quem não sabe falar um inglês minimamente bem, as únicas soluções que se pode encontrar é trabalhos em hotéis, limpeza, cozinhas, etc. Há sempre quem tenha sorte e acabe por encontrar um bom trabalho, mas a verdade é que é muito complicado.

TL: O que gostas mais e o que gostas menos em Londres? Queres ficar em Londres por muito tempo ou tens o objectivo de regressar a Portugal (ou ir para outro país)?

A única coisa que gosto em Londres é o movimento e a forma como as pessoas vivem. Não precisas de ter carro porque os autocarros passam de 1/2 minutos nas ruas principais ou 15 minutos em ruas sem movimento. O Metro cobre as zonas mais movimentadas e existem várias linhas, normalmente de 2 em 2 minutos (em hora de ponta) passa um comboio. Existe muitas lojas, muitos supermercados, centros de saúde, clínicas, escolas e para mim o mais importante: fazes o que queres e ninguém te diz nada. Podia ir para a rua todo sujo que provavelmente ninguém olhava ou criticava. Aqui é tudo normal.

O que menos gosto é o custo de vida. É tudo muito caro, alojamento é caro, os transportes são muito caros, os descontos que temos que fazer são altos… é complicado para quem vem para aqui sozinho: ou tem um trabalho onde ganha bem ou então é melhor voltar para o seu país.

Quanto ao ficar aqui ou não, até a uns tempos atrás queria voltar para Portugal, mas neste momento tanto faz estar aqui ou noutro local qualquer. Não tenho nada que me prenda aqui e também não tenho nada que me faça voltar para Portugal. Tudo vai depender daquilo que acontecer no futuro.

TL: Que conselhos podes dar a quem quer ir Trabalhar para Londres?

Bem, o primeiro conselho é que falem inglês mesmo que seja pouco. O segundo é que não tenham grandes expectativas quando não têm estudos e falem mal inglês. O terceiro e último é estar consciente de que apesar de algumas pessoas conseguirem ganhar dinheiro, muitas não conseguem. O custo de vida é muito caro, principalmente o alojamento e só tendo um trabalho que pague bem é que se consegue alguma coisa.

TL: Conheces muitos portugueses ou brasileiros a trabalhar em Londres?

Londres está cheia de portugueses e brasileiros. É normal estares na rua e ouvires alguém a falar português. A comunidade brasileira é maior, ajudam-se mais e têm mais apoios, alguns até apoiados pelo governo brasileiro, já a portuguesa não tem muita expressão, pelo que sei a única coisa que fazem em grande é o dia de Portugal/Madeira onde fazem uma grande festa e estão presentes cantores e pessoas conhecidas.

No trabalho onde estou agora, a maior parte dos trabalhadores são do Brasil e apesar de parecer ser bom, é péssimo porque não consigo desenvolver o meu inglês.

TL: A nível de habitação existem muitas dúvidas. O que sugeres a quem quer encontrar casa em Londres? Habitação partilhada ou sozinho? Podemos confiar nos sites da internet ou há aldrabões?

Encontrar casa em Londres é complicado. Há muita gente a procura e um apartamento, mesmo que esteja num local afastado de lojas e transportes, desaparece num instante.

O principal problema é o custo. Para um apartamento com 1 quarto de dormir, 1 sala, 1 cozinha e 1 casa de banho (tudo sem muito espaço), numa área não muito cara, custa a volta de 700/800 libras por mês. A isto temos que juntar o imposto municipal (council tax) que para este preço é cerca de 100/200 libras mais electricidade, gás, água e licença de TV. É tudo pago mensalmente, excepto a água e a licença de televisão que é pago por ano.

Sobre o alojamento partilhado, eu já vivi e não recomendo a ninguém. É mais barato, pode-se encontrar quartos a 50 ou 100 libras por semana, mas coisas como a cozinha e casa de banho tem que ser partilhado com as outras pessoas da casa. Para não falar no facto de que em alguns locais existem pessoas de vários países, logo vários ambientes, tradições, religiões e culturas.

Para encontrar alojamento, podemos recorrer a sites como a gumtree.com, um conhecido site de classificados. No entanto é preciso ter cuidado porque há sempre quem queira enganar outras pessoas, eu por exemplo cheguei a contactar uma pessoa que queria que envia-se o valor do depósito (normalmente 1 mês de renda) mesmo sem ver a casa.

O que eu faço e sugiro é visitar uma agência, fazer um contrato e fazer os pagamentos sempre pelo banco. Já passei por várias coisas que me levam a não confiar em ninguém… temos que ter provas de tudo.

TL: O que fazes nos tempos livres em Londres?

Eu raramente tenho tempo livre, como tenho vários websites o tempo livre é investido neles. Podia ir ao cinema, a centros comerciais ou simplesmente andar por aí a conhecer o outro lado de Londres (aquele que se ouve falar antes de viver aqui), mas não são coisas que goste muito de fazer.

Para quem gosta, aqui existem vários museus, monumentos, lojas, restaurantes, bares, concertos, teatros, cinemas e para quem gosta de sair a noite o que não falta são bares e discotecas. Mas se saírem a noite não se esqueçam de se controlar senão gastam o salário de 1 mês em algumas horas.

TL: Sabemos que também ganhas algum dinheiro na internet. Já o fazias quando foste para Londres? Qual a importância deste rendimento extra para viver numa cidade tão cara como Londres?

O que eu ganho neste momento através da internet são quase 2 salários mínimos em Portugal. No entanto é pouco para viver numa cidade tão cara como Londres. É importante para mim pois neste momento estou a conseguir pagar a renda aqui do apartamento onde vivo com os meus pais mas ainda é muito pouco para aquilo que pretendo.

Quando vim para Londres não ganhava nada na internet, alias, eu nem tinha noção de que isso era possível. Não tinha acesso a internet e por isso a minha visão era um pouco limitada, mas depois com o tempo livre que tinha fui analisando, tentando e tentando até que acabei por ganhar dinheiro (é sempre uma doce tentação). Demorou e até agora o que ganho vem de fontes não seguras, ou seja, pode dar durante alguns meses mas depois pode parar de dar. O primeiro passo está dado, agora falta consolidar essas fontes.

Para terminar, quero deixar alguns alertas para quem está a pensar a vir para Londres:

  • Antes de sequer pensar sair do seu país deve de pensar se está preparado para fazer alguns sacrifícios e ter que abrir mão de alguns luxos durante algum tempo.
  • Londres não é o paraíso como algumas pessoas dizem. Existem boas oportunidades de emprego, podemos ter uma boa vida, mas é difícil e nem todos conseguem. Não se deixem levar pelos relatos de pessoas que dizem que estão super bem quando parte delas tem um mau trabalho, mas mesmo assim mentem e criam ilusões a outras pessoas.
  • O inglês é fundamental para conseguir ter sucesso e ganhar dinheiro aqui. Diria até que você pode não ter formação, mas se souber falar inglês vai conseguir atingir os seus objectivos mais rapidamente.
  • Você tem que ser forte e não pode desistir a primeira. Não se admire se ninguém tiver paciência para tentar compreende-lo se não falar inglês ou se simplesmente o ignorarem.
  • Se está a pensar em vir sozinho, terá de arranjar um emprego onde ganha muito bem para conseguir pagar um apartamento e todas as despesas mensais. Se o objectivo é juntar dinheiro, vai ter que pensar em alojamento partilhado.
  • Evite confusões e não se meta em problemas. Aqui existem pessoas de muitos países, são várias culturas, várias religiões e mentalidades. As vezes é melhor esquecer e continuar.

Sabe mais sobre o Celso Azevedo e o WordPress Total.

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